O Ensino Médico e a Pandemia: A experiência da Rede CODEM-LP

in FMUL

O webinar que reuniu o Comité Executivo da Rede de Cooperação das Escolas Médicas de Língua Portuguesa (CODEM-LP) traduziu-se numa partilha de experiências e avaliação dos desafios que a atual pandemia apresentou ao ensino médico, num encontro em que tomaram a palavra os representantes de cada Faculdade de Medicina que integram uma Rede que se estende por quase todo o globo, incluindo instituições de Portugal (nomeadamente do Porto e Coimbra), Brasil, Angola, Moçambique e Macau.

senhor de oculos sentado

Partilhando o ecrã com a América do Sul e África, Fausto J. Pinto fez as honras de iniciar a sessão, introduzindo o tema com o enquadramento que revisitou o início da pandemia em Portugal, e particularmente, em Lisboa.

Realçou o papel interventivo do Conselho das Escolas Médicas Portuguesas (CEMP), através da “visão construtiva” na sensibilização do poder político para as tomadas de decisão mais eficazes na gestão da pandemia de Covid-19. “E que se refletiram no sucesso da contenção inicial da pandemia”, salientou Fausto Pinto, recordando que “as Universidades foram das primeiras a encerrar” as suas instalações numa ágil e pronta resposta no início do mês de março.

O Diretor da FMUL reiterou a celeridade e sucesso do programa de ensino à distância por videoconferência, implementado em 24 horas com o envolvimento de todo o corpo docente e Unidade de Audiovisuais que, com a colaboração de todos os alunos e do restante corpo de profissionais das mais diversas áreas da nossa faculdade, tornaram possível apresentar um novo programa de ensino que incluiu todas áreas disciplinares do Mestrado Integrado em Medicina (MIM), Licenciatura em Ciências da Nutrição (LCN), disciplinas das Ciências da Saúde e Engenharia Biomédica, e ainda manter em funcionamento todos os cursos de mestrado e doutoramento.

Fausto Pinto destacou a “capacidade fantástica” do corpo profissional da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, realçando ainda o contributo decisivo do Professor Joaquim Ferreira na gestão de um processo que superou expectativas, inclusive no método de avaliação à distância.

Não obstante o “claro predomínio de aulas por videoconferência”, foi possível em algumas áreas disciplinares, “complementar este programa com aulas Web em pequenos grupos ou estabelecimento de outras formas de contacto entre alunos e docentes”, elucidou Fausto Pinto, afirmando que os alunos que se encontravam em Erasmus “foram convidados a juntar-se ao nosso programa de ensino por videoconferência”.

Após reconhecer o “papel crucial”, “de liderança” dos Professores Coordenadores dos vários anos letivos e Coordenadores da LCN na definição e implementação dos novos programas curriculares com o apoio dos discentes do Conselho Pedagógico e comissões de curso de cada ano, Fausto Pinto revelou as medidas previstas para o próximo ano letivo.

estatua egas moniz

Reforçando a “incerteza da peculiaridade da situação atual”, o Diretor da FMUL anunciou a “passagem de todas as aulas teóricas e seminários para um formato de videoconferência”, sendo que “no caso das aulas correspondentes a seminários, poderá ser considerada a distribuição dos alunos por várias turmas com a repetição das aulas, permitindo uma maior interação docente-aluno”.

Fausto Pinto afirmou, ainda, haver “uma harmonização das Escolas Médicas, que se adaptaram às suas especificidades”, destacando o objetivo de procurar “otimizar todos os mecanismos de ensino à distancia para, assim, melhorar a eficácia e a recetividade, que foi já muito forte, por parte dos nossos alunos”.

No ano letivo 2020-2021, as aulas teórico-práticas assumem o formato de videoconferência, adiantou o Professor Fausto Pinto, ressalvando que “esta conversão deverá ser opcional, por decisão e proposta das respetivas Regências, a quem é dada grande flexibilidade, sendo possível a implementação de um formato misto, presencial e por videoconferência”.

varias pessoas em zoom

Quanto às aulas práticas laboratoriais, Fausto Pinto explicou que serão mantidas “sempre que possível” num contexto “presencial e laboratorial”.

O desafio maior encontra-se nas aulas práticas clínicas e estágios clínicos, acrescentou o Diretor da FMUL, e também estas, “sempre que possível” serão realizadas “num contexto assistencial (nas enfermarias ou consultas/instituições hospitalares ou unidades de cuidados de saúde primários”, prevendo-se a “redução do número de alunos presentes em cada momento, num mesmo espaço físico e/ou a redução do número de alunos por turma”, bem como “o tempo total de aulas práticas clínicas, em contacto com doentes, que também poderá ser reduzido”, esclareceu Fausto Pinto à audiência.

O Diretor da FMUL apresentou, ainda, um novo modelo de aulas presenciais de forma a facilitar a presença dos alunos em salas de aula ou auditórios/anfiteatros, através da distribuição dos alunos “pelo maior número de turmas possível, privilegiando os formatos letivos alternativos por via da observação e discussão de casos clínicos com doente presente em formato de grande round; discussão de casos clínicos (com ou sem apoio de vídeo com gravação de entrevista e observação do doente); aula prática à distância com entrevista clínica ao doente por videoconferência; e ainda a aula com utilização de simuladores ou outros formatos a serem considerados”, realçou Fausto Pinto, partilhando uma perspetiva em que “o formato de rotação dos alunos pelos diversos espaços físicos hospitalares, deverá minimizar o número de possíveis contactos com doentes e profissionais de saúde”. Um contacto que, como declarou Fausto Pinto, urge minimizar nas circunstâncias atuais, procurando por outro lado, e de forma persistente, formas de otimização de uma rede de contactos que é essencial para o ensino da Medicina.

mão de um rapaz a escrever num caderno

Por fim, “uma palavra especial para os estudantes do 6º ano”, os quais se pretende que assumam a sua presença em meio hospitalar, de forma a facilitar a integração dos mesmos num contexto que será a realidade da prática clínica no futuro. Fausto Pinto anunciou, então, a “recomendação de manter o programa de estágios em contexto clínico assistencial”, destacando que “a atitude dos alunos e os procedimentos a serem cumpridos deverá incorporar-se nas práticas aplicadas aos profissionais médicos das instituições de acolhimento”, carecendo de “consentimento por parte do aluno” e “definição das normas de proteção de saúde a serem aplicadas aos alunos”.

vários médicos vestidos com batas

Todavia, o Diretor da FMUL sublinhou que a presente recomendação depende “da autorização das unidades de saúde de acolhimento e eventuais limitações impostas”.

Não obstante o distanciamento físico, o encontro da Rede CODEM-LP, que pode ver ou rever aqui, foi uma oportunidade de estreitar relações, ao mesmo tempo que a partilha de experiências, que revelaram “muitos pontos em comum”, e novas ideias no campo do ensino médico que se quer cada vez mais sólido e enriquecido, mostraram que “todos têm tentado reinventar com inovação”, como destacou Fausto Pinto.

O próximo encontro da Rede CODEM-LP está já reservado para novembro, dias 4 e 5, e na impossibilidade de ter lugar no Rio de Janeiro como fora inicialmente planeado, irá decorrer em formato de evento virtual.

Entretanto, há muitos projetos em curso para consolidar uma “Rede que está viva” e que se pretende um instrumento de coesão para o maior desenvolvimento da educação e da pesquisa na Medicina.