Director da Faculdade de Medicina de Lisboa diz que novos cursos são “fixação” de Manuel Heitor

PÚBLICO

Lusa 2 de Setembro de 2021, 17:58

Manuel Roberto

A criação de novos cursos de medicina é “uma fixação” do ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES), criticou o director da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa sobre o objectivo de lançar três novas formações até 2023.

Em declarações à Lusa, Fausto Pinto reagiu com desagrado às ideias expressas por Manuel Heitor numa entrevista ao Diário de Notícias, na qual o ministro manifestou a expectativa de ter novos cursos de medicina nas universidades de Aveiro, Vila Real e Évora dentro dos próximos dois anos.

“A formação médica em Portugal não passa por novas escolas ou aumento de vagas, porque isso não vai contribuir em nada para resolver o problema da suposta falta de médicos”, afirmou o ex-líder do CEMP, sublinhando: “Só podemos compreender como algum desconhecimento sobre aquilo que é a educação médica e serem mais afirmações de carácter político do que relacionadas com a formação médica ou a melhoria dos cuidados de saúde.”

Fausto Pinto referiu que a medicina é hoje “uma das áreas mais dinâmicas no ensino” nacional e refutou a necessidade de diversificação da oferta expressa pelo MCTES.

“Ensinar medicina não é o mesmo que matemática e se calhar é isso que o ministro não entende”, disse, realçando ainda a existência de regras para este processo e uma aparente “pressão política” sobre a Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES).

“Estranhamos haver uma afirmação destas que antecede qualquer decisão pela agência reguladora, que é quem faz a acreditação dos cursos em Portugal, e isso já tinha acontecido com a criação do curso na Universidade Católica. Significa, enfim, alguma pressão política nesse sentido e a leitura que fazemos é uma leitura política completamente desenquadrada da realidade do que é o ensino médico em qualquer país e em Portugal”, frisou.

Por outro lado, o director da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa considerou um “mito” a falta de médicos em Portugal, identificando como principal problema “uma má gestão dos recursos humanos”. Ademais, Fausto Pinto defendeu que a aposta deveria passar pelo reforço das actuais faculdades de medicina e pelo aumento da sua competitividade e capacidade de atracção.

“Se é para contribuir para o empobrecimento do ensino de medicina e para aumentar a oferta de médicos para depois serem explorados por empresas médicas e serem mão-de-obra barata, então que se diga isso e seja essa a opção política que será depois sufragada”, vincou, sem deixar de considerar que a posição de Manuel Heitor está apenas baseada em “princípios ideológicos” e que não contribui para uma “discussão séria” sobre a formação em medicina.

Reivindicando “autoridade moral e científica e o conhecimento da realidade no terreno”, Fausto Pinto manifestou também a esperança de que este objectivo do ministro não avance, por entender que “não há massa crítica suficiente” para a sua concretização.

“Se, de facto, avançar neste sentido, vai ser mais um erro de “casting” e de decisão e as consequências que vai ter é eventualmente agradar a alguns autarcas locais, que vão ter mais estudantes e poder dizer que têm ensino universitário na região, mas para uma evolução do ensino da medicina em Portugal… por favor, não brinquem connosco. Em vez de melhorar, é empobrecer. É um erro”, concluiu.

No ano passado, o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior já tinha referido que a manutenção das vagas para os cursos de medicina tornava clara a necessidade de disponibilizar o ensino desta área noutras instituições, públicas ou privadas.

Manuel Heitor reafirmou também que são precisos mais médicos em Portugal e o alargamento da formação na saúde.

“O alargamento da capacidade de formação faz sentido se for feito juntamente com a diversificação da oferta. Isto foi algo que nas áreas das Engenharias, das Tecnologias e até das Ciências Sociais e da Economia já foi feito há muito tempo. Algumas áreas, mais por interesses corporativos, não diversificaram a oferta. Vê-se que nós em Portugal, por opção das próprias instituições e também das ordens profissionais, formamos todos os médicos da mesma forma”, referiu.

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